Q&A: O músico irlandês Hozier fala sobre direitos LGBTQIA+, sexualidade e cabelo
- Portal Hozier Brasil
- 20 de abr.
- 5 min de leitura
The Cut | Março de 2014
Entrevista por Julianne Escobedo Shepherd

Em setembro, o compositor irlandês Hozier lançou o vídeo de seu épico inspirado no gospel, “Take Me to Church”, uma canção intensa que usa o amor e o êxtase como metáfora religiosa. O vídeo retrata a intimidade delicada entre dois homens, seguida por um brutal ataque homofóbico cometido por vigilantes mascarados, ao som de versos como: “Eu nasci doente, mas eu amo isso / Ordene que eu fique bem / Amém."
A música funciona simultaneamente como uma mensagem sobre direitos humanos, um comentário sobre a criação de Hozier em um contexto que ele descreve como “um cenário cultural abertamente homofóbico”, e uma forte declaração sobre a homofobia institucional na Rússia de Putin. Nos meses desde seu lançamento, o vídeo viralizou (e nós o temos assistido repetidamente), trazendo o artista de 23 anos para o centro das atenções (ele completa 24 anos no Dia de São Patrício.)
Nesta semana, Hozier, nascido Andrew Hozier-Byrne, está nos Estados Unidos pela primeira vez, onde se apresentará duas vezes durante o SXSW e depois fará uma turnê pelo país. A The Cut conversou com ele sobre o significado de “Take Me to Church”, sexualidade, James Joyce e cabelo.
Há muito de Americana e blues na sua música, mas você é da Irlanda.
Eu basicamente fui criado ouvindo blues. Meu pai era músico de blues em Dublin quando eu era bebê, então a única música que eu ouvia enquanto crescia era John Lee Hooker e Muddy Waters. É uma música que, pra mim, tem gosto de casa. Depois descobri Motown, gospel, Delta blues e jazz, então uma grande parte das minhas influências vem da música afro-americana.
Suas influências afetam suas letras?
O blues é uma música muito física. Muitas vezes é sobre sexo, seja por meio de insinuações ou não. Frequentemente trata da relação entre duas pessoas. Então, nesse sentido, muitas das minhas músicas têm muito a ver com a interação entre duas pessoas.
Achei que a gente só ia falar sobre sexo, Deus e morte.
Sim, isso basicamente é tudo!
Sua música é mais "diarística" ou mais literária?
Há alguns escritores irlandeses que têm uma influência muito forte sobre mim, especialmente no EP de “Take Me to Church”. "O Retrato do Artista Quando Jovem", de James Joyce. É muito sobre a luta de um homem para encontrar sua própria identidade em uma cultura opressiva da igreja, em uma época fortemente influenciada pela Igreja Católica e por um nacionalismo do qual ele só quer se libertar.
“Take Me to Church” é uma crítica a instituições opressivas, com uma mulher ou pelo menos um pronome feminino usado como uma espécie de "salvadora".
“Take Me to Church” é essencialmente sobre sexo, mas também é um ataque irônico a organizações que… bem, é sobre sexo e sobre humanidade, e obviamente esses dois estão profundamente ligados. Sexualidade e orientação sexual, independentemente de qual seja, são naturais. O ato sexual é uma das coisas mais humanas que existem. Mas uma organização como a igreja, por exemplo, por meio de sua doutrina, pode minar a humanidade ao ensinar a vergonha em relação à orientação sexual, dizendo que é pecado, ou que ofende a Deus. A música fala sobre se afirmar e recuperar sua humanidade por meio de um ato de amor. É dar as costas a algo teórico, algo que não é tangível, e escolher venerar ou amar algo que é real, que pode ser vivido.
Mas não é um ataque à fé. Vindo da Irlanda, obviamente existe um resquício cultural da influência da igreja. Há muitas pessoas carregando um peso grande no coração e uma decepção, e isso passa de geração em geração. Então a música é sobre isso, é uma afirmação do eu, uma retomada da humanidade em algo que é o mais natural e valioso possível. Escolher, nesse caso uma mulher, um amor que valha a pena amar.
O vídeo acompanha isso, é uma declaração contra a opressão estatal e a homofobia na Rússia.
Com certeza. Ele faz referência a ataques organizados contra jovens LGBT que acontecem com impunidade, sem ação das autoridades. Há muitos grupos de extrema-direita que filmam esses ataques. Como a música sempre foi sobre sexualidade e sobre organizações que tentam minar a humanidade no que ela tem de mais natural, pensamos que na Irlanda a igreja já não tem mais esse tipo de poder que tinha antes, mas sempre haverá organizações que terão, ou tentarão ter. Esperamos que um dia não haja mais, mas hoje ainda existem, e isso é um exemplo claro disso.
São pessoas cometendo atos terríveis sob a justificativa de um tradicionalismo de extrema-direita, e também como parte de uma longa campanha para equiparar a homossexualidade a coisas como pedofilia e bestialidade, o que é absolutamente horrível. Então foi isso que quisemos mostrar. O vídeo não exagera nada, só quisemos mostrar como realmente é.

Ao longo do vídeo, os personagens enterram e desenterram um baú acorrentado e trancado. O que isso representa?
Eu prefiro não entrar nisso, acho melhor que fique aberto para cada pessoa decidir o que significa.
A igreja ainda promove homofobia institucional na Irlanda?
Não tanto por parte da igreja atualmente, mas ainda existe esse tipo de discurso de relações públicas, uma espécie de recuo tático, de dizer: “amamos o pecador, mas odiamos o pecado.” É uma forma indireta de dizer a alguém que deveria sentir vergonha de quem é e do que faz. Mas agora haverá um referendo no próximo ano sobre igualdade no casamento. Temos uniões civis, mas não temos casamento igualitário. Só recentemente, no último mês, houve bastante alvoroço na mídia sobre o uso do termo “homofobia”. Mas está mudando. Está melhorando.
Existe algum motivo pessoal para você se posicionar tanto contra a homofobia?
Não, e não acho que precise ter. Para mim, nem é uma questão apenas LGBT ou de direitos civis, é uma questão de direitos humanos, e a homofobia deveria ofender a todos nós. É simples: ou alguém tem direitos iguais ou não tem. E, certamente, na constituição irlandesa o casamento é sem gênero, não há menção a homem e mulher. Eu nem tinha tantos amigos LGBT próximos nem nada assim, mas acho que crescer e perceber como você faz parte de um cenário cultural abertamente homofóbico foi um dos motivos. Tenho certeza de que é parecido aqui também. Você para e pensa: por que cresci em um lugar homofóbico? Por que cresci em um lugar misógino? Você cresce e reconhece que, em qualquer sociedade secular e instruída, não há desculpa para a ignorância. É preciso reconhecer isso em si mesmo e se desafiar: se você vê racismo, homofobia ou misoginia em uma sociedade secular, como membro dessa sociedade você deve confrontar isso. Você deve isso ao progresso da sociedade.
Na música “Angel of Small Death and the Codeine Scene”, você faz referência ao orgasmo, mas em contraste com “Take Me to Church”, a mulher na letra aparece mais como uma anti-salvadora.
Eu não encorajaria você a analisar demais, só porque eu não compartilharia tanto assim [risos]! Quando escrevo músicas, tento me distanciar um pouco. Obviamente elas são pessoais para mim, mas fica mais fácil quando sinto que estou escrevendo personagens. Não sei, cara! Provavelmente há muito de "O Retrato do Artista Quando Jovem" nessa música. Acho que fala sobre uma sensação de libertação e sobre uma mulher cujas referências podem ser no mínimo questionáveis.
É sua primeira vez em Nova York. Você trouxe sua família também?
Meu pai está aqui e meus primos de segundo grau, que vieram de Boston e que eu raramente vejo. Sei que Nova York é um lugar único nos Estados Unidos, então o choque cultural não é tão grande, mas quando eu for para o Texas e para Los Angeles, vamos ver.
Eu vi seu pai. Vocês dois têm cabelos incríveis.
Obrigado! A gente "cultiva" eles por conta própria.
Vocês compartilham dicas de cuidado com o cabelo?
Sim! É só não escovar demais. Eu simplesmente odeio cortar o cabelo. Deve ser alguma coisa na água.
Entrevista original: https://www.thecut.com/2014/03/qa-hozier-on-gay-rights-sex-good-hair.html



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