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Entrevista com Hozier: "Sou um introvertido desengonçado" | The Telegraph, 2014

The Telegraph | Neil McCormick, Crítico Musical

30 de novembro de 2014


📸 Gabriel Grams
📸 Gabriel Grams

“Seja lá o que for, não é música pop”, diz Andrew Hozier-Byrne sobre a canção que lançou sua carreira de forma dramática este ano. "Take Me To Church" é um hino com alma, influências de blues e toques de gospel sobre adorar no altar da sexualidade de alguém. Em suas letras, o jovem irlandês (que se apresenta com o nome Hozier) dispara críticas afiadas à religião organizada, abordando a culpa católica e a doutrina do pecado original. Ao falar sobre sua inspiração, ele cita o dramaturgo elisabetano Fulke Greville e seu poema de 1554, “Chorus Sacerdotum”, além dos escritos ateus de Christopher Hitchens. “Crescendo na Irlanda, a igreja está sempre presente, e muito do sentimento na música vem da frustração com sua hipocrisia e covardia política.”


O videoclipe é um curta em preto e branco perturbador sobre a repressão homossexual na Rússia, e já acumulou 29 milhões de visualizações no YouTube. "Take Me To Church" se tornou presença constante nas rádios americanas, e o álbum de estreia de Hozier foi direto para o segundo lugar nas paradas dos Estados Unidos no mês passado. Ele foi convidado para praticamente todos os principais programas da TV estadunidense e, durante sua mais recente turnê pelos EUA, o cantor com seus 1,93m (correção do Portal: 1,98m), magro, com barba desgrenhada e obcecado por blues, se apresentou em casas lotadas de jovens fãs apaixonadas. A gigante do pop Taylor Swift foi vista em vários de seus shows, cantando junto. “Ainda estou tentando processar tudo isso”, diz Hozier.


Em um canto meio decadente do Irving Plaza, em Nova York, onde ele está fazendo dois shows com ingressos esgotados, Hozier admite se sentir um pouco sobrecarregado. “Tem sido uma curva de aprendizado muito íngreme. Por natureza, sou uma pessoa meio desajeitada, sou um introvertido magricelo e desengonçado. Sinto que meu dever é fazer música. E então você entra em toda essa confusão. Acabei de sair da VH1 e estavam me perguntando sobre o meu cabelo.” Ele toca seu rabo de cavalo preso. “Aparentemente, isso é um 'man-bun' (coque masculino)."


Mas, em vez de cair numa reclamação duvidosa sobre o preço da fama, o jovem sério e de fala suave de 24 anos reflete de forma cuidadosa sobre como a internet está mudando a natureza da fama. “Estamos em um momento de obsessão consigo mesmo na humanidade. Tudo é direcionado para a ideia do ‘eu’, mas não o eu real, e sim o que você quer que as pessoas pensem que você é. As redes sociais são uma propaganda de um eu superficial e extrovertido. Eu me sinto desconfortável com selfies e atualizações de status documentando partes banais da minha vida, que não acho que deveriam interessar a mais ninguém. A ideia de que as pessoas gastariam parte da própria experiência humana discutindo as experiências cotidianas mais triviais da vida de outra pessoa… acho isso estranho, e de muitas maneiras, muito triste.”


Andrew Hozier-Byrne foi apontado como alguém destinado ao sucesso desde cedo. Ele cresceu nas montanhas de Wicklow, em um estilo de vida bem rural que ele descreve como “coisas de fazenda no interior”, embora não sem certo privilégio. Estudou no St Gerard’s, uma escola privada progressista em Bray com raízes no movimento Montessori, cujos ex-alunos incluem os filhos do cantor e compositor Chris de Burgh, do ator Daniel Day-Lewis e dos importantes promotores de shows irlandeses Denis Desmond e Caroline Downey (que hoje gerencia Hozier). Seu talento vocal foi desenvolvido no coral e ganhou destaque em apresentações de blues em shows de talentos da escola, e aos 16 anos ele se tornou solista do respeitado grupo coral irlandês Anúna. “As pessoas me viam como um vocalista, e eu poderia ter seguido o caminho desses programas de TV de entretenimento quando saí da escola. Mas eu queria ser cantor e compositor, mesmo sem saber exatamente o que queria dizer ou como diria.”


Ele abandonou o curso de música no Trinity College, em Dublin, para assinar um contrato de desenvolvimento com a Universal Ireland aos 19 anos. “Houve alguns casos em que trabalhei com produtores e simplesmente não me senti confortável. Em qualquer tipo de colaboração, algo se perde. Já é difícil o suficiente reduzir suas próprias músicas à essência, sem tentar equilibrar isso com a visão artística de outra pessoa.”



O senso de pureza artística de Hozier vem de uma obsessão de toda a vida pelo blues. Seu pai era baterista da banda de blues de pub de Dublin chamada "Free Booze", e o filme favorito do jovem Hozier era "The Blues Brothers", que ele assistia repetidamente. “Isso me levou ao blues de Chicago, depois fiquei realmente obcecado pelo Delta blues, um homem e seu violão, e pelas gravações de campo de Lomax, expandindo para soul e jazz, os blocos de construção da música popular.” Ele tem um fascínio particular por vocalistas femininas fortes, citando o impacto de Nina Simone, Billie Holiday e Ella Fitzgerald, onde “a voz era tudo. Eu apenas segui o que me tocava. Meu interesse chegou até a música do início do século XX, como o Vaudeville. Tinha um som muito cru, quando você tem apenas alguns microfones e consegue capturar o som vibrante de um ambiente. Há uma parte de mim que busca essa atemporalidade.”


Depois de anos praticando no sótão da casa dos pais, “tudo se encaixou” quando ele se sentou ao piano e escreveu "Take Me To Church." “Foi a primeira música em que consegui colocar tudo o que queria dizer.” Ela foi incluída em seu EP de estreia, que chegou ao primeiro lugar no iTunes irlandês em outubro de 2013. “Tudo desde então tem sido um turbilhão. Sonhos se realizando um atrás do outro.”


Superficialmente, Hozier pode ser associado ao gênero contemporâneo de cantores e compositores sensíveis liderado por seu conterrâneo Damien Rice, embora a densidade quase pantanosa do som de sua banda e sua guitarra elétrica com influência de blues adicionem um sabor muito distinto, enquanto seu estilo lírico é profundo, sombrio e intransigente. Seu álbum é repleto de músicas sobre mortalidade, repressão e sobrevivência. “Quando descobri Tom Waits, isso mudou tudo. Acho que há uma diferença entre fazer música e escrever canções, e para mim as palavras são o núcleo, é onde estão o personagem e a história. Fico fascinado com o que uma música pode ser aos olhos da história, um retrato de uma época, quase como uma fotografia do tempo em que o compositor viveu. Seja em canções do início do século XX mencionando racionamento e filas por comida ou Justin Bieber cantando ‘baby, baby, baby’, você tem um vislumbre da mentalidade cultural e dos valores, esperanças e medos da sociedade.”


Seu próximo single, "From Eden," continua o tema religioso de "Take Me To Church," embora Hozier se declare ateu. "'From Eden' é narrada do ponto de vista do Diabo. Sempre gostei de como, na música blues, o Diabo pode ser um personagem que anda e fala. Tão terrível é o seu estado que parece haver uma presença ao seu redor. Não passo muito tempo pensando sobre a natureza de Deus, mas me interessa o que as pessoas dizem sobre Deus, como isso é usado para controlar pessoas e mudar políticas no mundo físico.”


Suspeito que nem todo mundo está se aprofundando tanto na obra de Hozier. “Recebi uma oferta de um pastor para ir apresentar "Take Me To Church" em uma prisão de segurança máxima no sul, como parte de um programa de reabilitação espiritual, uma experiência de ‘encontrar Deus’. As pessoas ouvem o que querem ouvir. E tudo bem.”


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