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Q&A: Hozier sobre Tom Waits, poesia e a mistura de pop e política

Forbes | Dezembro de 2019

Por Steve Baltin


📸 Timothy Norris
📸 Timothy Norris

Hozier está se apresentando no Grammy Museum nesta noite de outubro quando me encontro com ele e em Los Angeles dois dias depois para um show com ingressos esgotados no Greek Theater, ambos com o seu álbum Wasteland, Baby!, lançado no início deste ano. Ele fará uma apresentação intimista no Grammy Museum.


Enquanto espero para conversar com ele, Hozier conduz sua banda pelos ensaios, passando por cada música com dedicação, trazendo uma precisão quase obsessiva na atenção aos detalhes a cada ajuste que ele e a banda farão para a apresentação daquela noite.


Ainda assim, em meio a essa preparação meticulosa, também se percebe uma sensação de alegria e leveza enquanto a banda discute cada canção e debate se chegaram ao resultado certo ou se já podem seguir para a próxima no ensaio. Observar esse ensaio oferece um microcosmo de Hozier. O cantor e compositor irlandês é cerebral, reflexivo e trabalhador, mas agora aos 29 anos, com seis anos de carreira e seu segundo álbum, ele se mostra mais relaxado enquanto conversamos.


Aqui, Hozier fala sobre seu amor pela poesia irlandesa, o desenvolvimento de sua voz socialmente consciente, a participação de convidados como Bono e Annie Lennox em seu podcast “Cry Power”, feito em colaboração com o Global Citizen, e sua admiração por Tom Waits.


Steve Baltin: Quantos anos você tinha quando decidiu assumir o controle do seu próprio trabalho?

Hozier: Eu estava na faculdade com 19 ou 20 anos, estudando música na universidade. Era muito focado em história, muito baseado em teoria. Não era para mim. Mas, ao mesmo tempo, também tive oportunidades de passar um tempo em um estúdio financiado por uma gravadora. Isso coincidiu e entrou em conflito com o calendário de provas, e eu escolhi o estúdio. Acabei tomando a decisão de sair da faculdade sabendo que essas eram habilidades que eu teria que aprender para fazer música popular contemporânea, em vez de passar a vida com a cabeça enfiada em livros aprendendo teoria histórica.


Baltin: Imagino que a teoria histórica tenha ficado com você mais do que você imaginava originalmente e influenciado seu som. Vi que você mencionou Tom Waits, meu compositor favorito de todos os tempos, e quando o entrevistei ele lia o jornal antes para contar anedotas. Então você realmente precisa desse conhecimento como referência. Você sentiu isso?

Hozier: Tom Waits foi uma influência enorme, enorme para mim. Aos 14 ou 15 anos descobri o trabalho dele e era simplesmente como nada que eu já tinha ouvido. A forma como ele mudou e evoluiu, o lirismo dele, os mundos que ele pintava e os personagens que colocava neles. Me apaixonei pelo álbum Alice e por Blood Money, e meio que me perdi no trabalho dele, como você se perde numa floresta assustadora mas maravilhosa. Foi muito importante para mim. Mas, sim, eu cantei em um coral por muito tempo, um coral de música antiga. Um grupo irlandês chamado Anúna. Então você aprende canções em latim, em espanhol medieval, que é o espanhol da Idade Média, gaélico. Músicas muito antigas, harmonias malucas, incríveis, arranjos lindíssimos. Ter esse “algo a mais” na sua paleta acaba influenciando a forma como penso sobre harmonia e vozes humanas. E a maioria das minhas músicas se apoia muito em vozes humanas e harmonia. Então esse tipo de coisa ajuda a longo prazo.


Baltin: Qual música do Tom Waits você gostaria de ter escrito e por quê?

Hozier: Essa é muito difícil. Eu sempre volto para “Soldier’s Things”, que acho que estava em Swordfishtrombones. Mais tarde na carreira ele fez coisas mais raivosas, mais próximas do que você poderia chamar de música de protesto. “Soldier’s Things” é melodicamente linda e a performance no piano é maravilhosa. Mas, no fundo, também é uma canção anti-guerra executada de forma muito sutil, mas impressionante. Dá para interpretar assim. É o trabalho, os feitos e o valor de um homem sendo reduzidos a “tudo vira alguns dólares dentro de uma caixa”. Aquela letra: “E esta é pela coragem, e esta é para mim”. É esse personagem que acabou de assumir a vida de um homem, seus pertences como soldado, e agora está vendendo tudo por trocados. Há uma tristeza real nisso e é uma imagem tão bonita. Sempre volto para ela.


Baltin: Você já falou sobre escrever a partir de uma perspectiva socialmente consciente. Para mim, o melhor tipo de escrita socialmente consciente vem do pessoal.

Hozier: Totalmente. E eu acredito que o pessoal é político. O que chamamos de político é um mescla, em larga escala, de muitas experiências pessoais.


Baltin: O que também percebo conversando com artistas é que, quanto mais velho você fica, mais importante se torna usar sua voz para o bem.

Hozier: Às vezes pode parecer assim, sim. Sempre surge a pergunta: “Artistas têm um dever?” Não sei exatamente como me sinto sobre isso. Mas você sente que tem a capacidade de fazer algo. E sente que, se é sincero nas suas convicções e acredita de verdade em algo, pode falhar miseravelmente, pode dar com a cara no chão. É disso que muitos artistas têm medo, de serem ridicularizados ou criticados. Mas, se você é sincero e acha que pode fazer algo, foda-se, faça isso. Outra coisa sobre envelhecer: no começo você pensa “preciso ser sutil”, "preciso ser cuidadoso com o que digo para não ofender ninguém." Mas depois você percebe que não há absolutamente nada de sutil nas coisas que te revoltam. Não há nada de sutil no legado da guerra, da pobreza, do racismo. É gritante, é profundamente perturbador. Então por que ser sutil na sua abordagem? Você simplesmente passa a se importar menos com “e se eu ofender alguém?”. Quem se importa?


Baltin: Você acha que seu público estava com vontade de ouvir mais consciência social na música?

Hozier: Talvez. Eu sempre fico um pouco relutante de, num show em que as pessoas pagaram para me ver cantar, começar a fazer discursos. Acho que é terreno delicado. Mas às vezes as pessoas querem ouvir isso, sim.


Baltin: Acho que depende da relação que o artista constrói com o público. Se você fosse a um show do Bruce Springsteen e ele não falasse nada, ficaria surpreso. Então você sente que construiu esse tipo de relação?

Hozier: É uma questão curiosa. Acho que o público sabe onde está meu coração em relação a muitos temas. Quando entramos nessas conversas de esquerda e direita, isso muitas vezes é usado para dividir as pessoas, os trabalhadores. É algo com que é preciso ter cuidado. Mas concordo com a ideia de que artistas dizem: “Sim, isso muda as coisas.” E você sente que não dá para ignorar. É um elefante enorme e fumegante na sala, impossível de ignorar. Isso precisa entrar no seu trabalho. Acho que é saudável e restaurador para as pessoas estarem em um espaço coletivo, como um show, conectadas pelo amor à música, e também verem seus valores ressoando entre si. Isso é restaurador e encorajador.


Baltin: Para você, ao crescer, quais foram esses shows?

Hozier: Consigo pensar em alguns. Há uma banda muito querida lá em casa, a banda do Glen Hansard, The Frames, que é extremamente popular em Dublin, são verdadeiros heróis locais. Lembro de ser bem jovem e estar em um show assim. É como estar em Nova Jersey em um show do Bruce Springsteen, aquela sensação de casa, música, comunidade, de fazer parte daquilo. É algo especial.


Baltin: Existem letras ou momentos que te surpreendem na sua própria escrita?

Hozier: Sim, com certeza. Pegando um exemplo do primeiro álbum, “From Eden”: acho que é um reflexo geral de como você sente que o mundo está indo. Então “O idealismo está na prisão, a cavalaria caiu sobre sua própria espada / a inocência morreu gritando”. É essa sensação de que as coisas estão indo mal, na direção errada. E também tento fazer referências sutis a outros artistas que apontaram na mesma direção. Acho que no EP anterior tem uma música chamada “Nothing F**ks With My Baby”, que é bem direta (risos). Ela faz referência a um poema do W.B. Yeats, “The Second Coming”. Às vezes você canaliza isso de formas diferentes, e geralmente esse é o melhor caminho, porque parece natural.


Baltin: Há outros poetas que entraram no seu trabalho ou que você gostaria de homenagear?

Hozier: Há muitos poetas irlandeses. Oscar Wilde aparece em algumas coisas. No primeiro álbum, especialmente, há um aspecto meio de conto de fadas em algumas músicas, como “In The Woods Somewhere” ou “Like Real People Do”. No fim da adolescência, começo dos 20, me apaixonei pelo trabalho dele, pela poesia também. Acho que peguei emprestado um verso de um poema do Oscar Wilde em “From Eden”.


Baltin: O que você aprendeu ao ter pessoas como Bono e Annie Lennox no seu podcast?

Hozier: O Bono é fascinante, porque o trabalho que o (RED) e o ONE fazem, os resultados concretos, não recebem nem metade da atenção que deveriam. São resultados incríveis. E a Annie Lennox é uma pessoa maravilhosa, com um forte senso de justiça. O Bono tem muito essa coisa de querer ser útil, tipo: “Qual o sentido de todo esse sucesso? Qual o sentido dessa plataforma se você não pode ser útil?” Acho uma filosofia linda. Ele também é um homem de fé muito forte, o que é bonito à sua maneira, porque ele tira muita força disso. A Annie Lennox foi super interessante.





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