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Colonialismo e apagamento cultural: análise da dimensão política de Foreigner's God


Para entendermos mais sobre essa música, vamos começar com a letra e a tradução:



Para além da parte romântica, iremos falar sobre a dimensão política e histórica da música. Sabemos que Hozier é extremamente ligado à história de seu país, a Irlanda, que foi colonizada e viveu séculos de dominação política e simbólica.


The Marriage of Strongbow and Aoife - Daniel Maclise (1854)
The Marriage of Strongbow and Aoife - Daniel Maclise (1854)

Hozier descreve a música como o "sentimento de se sentir alienado dentro de uma cultura, distante dos próprios valores e incapaz de expressar sua identidade cultural, passando a se sentir 'errado.'"



É isso que vimos (e ainda vemos) acontecer ao redor do mundo com povos cujas culturas são reprimidas, ridicularizadas e substituídas por sistemas dominantes. Com a colonização de povos originários e a imposição cultural feita por imperialistas, vemos línguas sendo proibidas ou desincentivadas, além de costumes e identidades sendo apagados.


Primeiro batismo nas Filipinas - Fernando Amorsolo
Primeiro batismo nas Filipinas - Fernando Amorsolo

Em 'Foreigner’s God', Hozier imagina tudo o que isso causa: sentir-se estrangeiro dentro da própria terra, uma vez que sua cultura e tudo o que você conhecia foi reconfigurado por uma força externa. Sabemos também que, durante a colonização dos povos, a religião era usada como ferramenta de controle. As religiões tradicionais eram “demonizadas” e substituídas pelo cristianismo. Dessa forma, as pessoas passavam a sentir que seus valores e crenças eram errados ou ilegítimos.

Pe. António Vieira pregando aos índios - C. Legrand (1841)



Como consequência da colonização, temos também a demonização de identidades de gênero e de sexualidade. Sabe-se que muitas culturas indígenas reconhecem identidades não binárias e diversos tipos de sexualidade diferentes. Conheça a história do indígena maranhense Tibira, considerado o primeiro assassinado por LGBTfobia no Brasil, aqui.


Ao redor do mundo e ao longo de diferentes períodos históricos, identidades de gênero não binárias sempre existiram e eram reconhecidas por diversos povos originários. Conheça algumas delas aqui.


Falando sobre se sentir estrangeiro, “de fora” e “errado”, a letra também pode ressoar profundamente em pessoas LGBTQIA+. A disforia corporal, a forma como essas pessoas são ensinadas a se enxergar e como são tratadas pela sociedade causam a pressão diária de ter que se adaptar para sobreviver, mesmo se sentindo um alien no meio das outras pessoas, como Hozier menciona na entrevista que postamos no início da análise.


Os povos colonizados/marginalizados acabam sendo forçados a se assimilar à cultura dominante para sobreviver socialmente (educação, trabalho, convivência). Isso faz com que sua própria cultura vire algo distante, silenciado ou fragmentado.


A descrição de Hozier dialoga com experiências históricas de culturas apagadas ou assimiladas, criando nas pessoas uma sensação de deslocamento e culpa cultural, em que o sujeito passa a se sentir estrangeiro em sua própria identidade.


Esse sentimento de alienação cultural não pertence apenas ao passado. O imperialismo continua se reconfigurando e se fortalecendo no presente, especialmente por meio de potências como os EUA, que exercem influência política, econômica, militar, cultural sobre outros países/povos.



Essa influência molda identidades, narrativas e formas de existir, muitas vezes marginalizando culturas que não se encaixam no modelo dominante. 'Foreigner’s God' não fala apenas de um estrangeiro literal, mas de um estrangeiro simbólico: alguém que é transformado em estranho dentro de sua própria cultura, terra e identidade.




EXTRA: no livro que fizemos para o Hozier na vinda dele ao BR, falamos sobre línguas indígenas brasileiras e também indicamos alguns escritores. Entre eles Ailton Krenak, autor, ativista e líder indígena que une filosofia, ecologia, política e poesia.


Fica a indicação do Portal!



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