Arsonist’s Lullabye, neologismos e o adeus de um incendiário
- Portal Hozier Brasil
- 2 de dez. de 2025
- 3 min de leitura

Análise por Karol Cândida
Portal Hozier Brasil, 2025
O Portal vem pensando ultimamente: “Por que ‘Arsonist’s Lullabye’ é escrito assim, com um ‘e’ no final?! Tem um significado escondido aí, ou a gente já tá sofrendo sinais de abstinência por falta de conteúdo da turnê?”
“Arsonist’s Lullabye" significa literalmente ‘Canção de Ninar do Incendiário’. Se imaginarmos “lullabye” como um jogo de palavras com Lullaby (canção de ninar) + bye (adeus), isso poderia influenciar na interpretação da canção? A gente acha que sim!
Nessa música lançada originalmente no EP From Eden e depois incluída na versão deluxe do álbum de lançamento do Hozier (2014) acompanhamos um eu lírico lidando com seus demônios pessoais e a dinâmica dessa relação ao longo de sua trajetória. A narrativa é construída no passado, com esse sujeito revisitando diferentes momentos de sua vida e refletindo sobre a evolução de sua percepção em relação à eles.
Quando eu era criança, eu ouvia vozes
When I was a child, I heard voices
Algumas cantavam e algumas gritavam
Some would sing and some would scream
Você logo descobre que tem poucas escolhas
You soon find you have few choices
Aprendi que as vozes morreram comigo
I learned the voices died with me
A nossa interpretação leva a crer que a música funciona como uma autópsia metafórica sobre comportamentos autodestrutivos. Junto da ideia de “demônios”, manifestados inicialmente pelas vozes ouvidas pelo eu lírico, Hozier também insere o fogo como um elemento constante na vida desse sujeito. A cada trecho da música o percebemos como algo contraditório, que queima mas que passa a servir como combustível para seus objetivos.

Tudo que você tem é o seu fogo
All you have is your fire
E o lugar que você precisa atingir
And the place you need to reach
Nunca dome seus demônios
Don't you ever tame your demons
Mas sempre os mantenha em uma coleira
But always keep them on a leash
Da mesma forma que em algumas canções de ninar folclóricas contêm elementos sombrios e assustadores com a intenção de agir como um alerta para aqueles que as ouvem, “Arsonist's Lullabye” cumpre esse papel ao contar a história desse incendiário que aprendeu a “abraçar” seu fogo interior, o entendendo como parte insubstituível de sua identidade, ao invés de tentar domá-lo ou apagá-lo.
A narrativa ganha um tom ainda mais dramático quando lembramos que essa história, por ter uma certa distância temporal ao ser contada no passado, nos permite ouvir a voz desse narrador de um lugar de pós-morte, revisitando uma vida que já não lhe pertence.
Quando eu era um homem, pensei que havia terminado
When I was a man, I thought it ended
Quando eu conhecia a dor perfeita do amor
When I knew love's perfect ache
Mas a minha paz sempre dependeu
But my peace has always depended
De todas as cinzas no meu caminho
On all the ashes in my wake
Como bons brasileiros que somos, fica impossível não lembrarmos do clássico literário “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, de Machado de Assis. Obra que também trás um “defunto-autor” que revisita sua vida a partir de um ponto de vista póstumo reinterpretando seus erros. Ambos estabelecem com o público uma relação de intimidade narrativa e de “acerto de contas” com o passado: contando sua história depois de concluída, tanto Brás Cubas quanto o incendiário da canção transformam sua própria trajetória numa espécie de alerta e reflexão sobre o preço de seus impulsos e escolhas. (ENGLISH VERSION HERE)
E assim finalizamos nossa análise defendendo a ideia de que ‘‘Lullabye”, seria um neologismo que reforça o significado desta música não somente como uma canção de ninar com uma advertência sobre as concessões que fazemos ao longo da vida, mas também como um ato de despedida desse narrador que se encontra um lugar de conclusão, já no fim da sua jornada, reavaliando o que viveu a partir de um ponto em que tudo já foi decidido.
Claro que isso não passa de uma análise subjetiva de uma fã já sentindo saudades de toda a movimentação da Unreal Unearth Tour. Seria muito engraçado se essa história chegasse no Hozier e ele só pensasse “ah, então lullabye não se escreve com ‘e’?” 😬
Um agradecimento especial à Haylz (@BikeWontGo_wtf) por engajar e enriquecer essa ideia através de conversas no twitter. Você pode ler a análise dela, sob uma perspectiva diferente fruto desta conversa neste link.









Comentários